A mulher, em Jorge de Lima, o caminho de volta: de objeto a sujeito

Mulher proletária – única fábrica
Que o operário tem, (fabrica filhos) […] (LIMA, 1978, p.21).

Larissa Cardoso Beltrão – laricinhabeltrao@hotmail.com

Ainda sob o signo de estarmos no mês de março, o hoje, denominado mês da mulher, colocamos em foco a análise do poema Mulher proletária de Jorge de Lima. Para tanto, partiremos do pressuposto de que, em suma, o poeta teria por ofício mostrar ao leitor, através de um olhar próprio e inovador, as possibilidades de se pensar na realidade de um modo diferente, enxergar nos fatos mais simples e corriqueiros as possibilidades de redenção que a poesia nos oferece.
Como os versos supracitados anunciam a mulher que, por assim dizer, vive, em algumas esferas, seus dias de glória, passou muito tempo fadada à condição de objeto, sendo vista como mera fábrica – e de filhos. Nesse sentido, ao associar a realidade vivenciada e a tentativa de representação literária almejada pelo poeta, acreditamos que:
Projetando na consciência do leitor imagens do mundo e do homem muito mais vivas e reais do que as forjadas pelas ideologias, o poema acende o desejo de uma outra existência, mais livre e mais bela. E aproximando o sujeito do objeto, e o sujeito de si mesmo, o poema exerce a alta função de suprir o intervalo que isola os seres. Outro alvo não tem na mira a ação mais enérgica e mais ousada. A poesia traz, sob as espécies da figura e do som, aquela realidade pela qual, ou contra a qual, vale a pena lutar. (BOSI, 1977, p. 196).

Desse modo, podemos dizer que o ofício do poeta estaria diretamente ligado à capacidade de transformação do meio em que o mesmo vive. Ao utilizar a palavra, ele consegue incutir nos seus leitores a incômoda ideia de discordância, a insatisfação diante das circunstâncias as quais eles são expostos. Como bem sugeriu Bosi (1997), o ato de aproximar dos fatos o leitor/ouvinte, através do poema, suscita-o a maior sensibilidade e, então, surge a possibilidade de transformá-los.
A arte, nessa perspectiva, cabe a função de expor e, principalmente, denunciar os aspectos da vida humana, aqueles que denotam as mazelas, para que possam reconhecê-los e, de maneira ativa, agir em busca de superação. Sabendo disso, partimos para a poesia de Jorge de Lima. Em seu poema Mulher proletária, Lima ousa contar a história de uma classe vítima de injustiças: a proletária. Desde o título, observamos a generalização do poeta, como se ao citar o substantivo mulher pudesse alcançar a todas que se reconhecessem na amarga condição de operárias. Os primeiros versos dizem:
Mulher proletária — única fábrica
que o operário tem, (fabrica filhos)
tu, na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus
forneces braços para o senhor burguês (LIMA, 1978, 21)
Lima retoma o título do próprio poema para, a partir dele, descrever o árduo trabalho dos operários que nas fábricas em crescimento no século XIX eram comparados a máquinas. As mulheres, nesse contexto, representam as máquinas humanas, sujeitas às imposições dos maridos, os também explorados- operários, que as tratavam como objetos sexuais e, ao mesmo tempo, objetos de produção doméstica, uma vez que tinham o dever fabricar e de cuidar dos filhos que, geralmente, eram muitos e, além disso, se encarregavam ainda de cuidar sozinhas, das demais atividades corriqueiras. Comprovamos essa realidade nos versos “mulher proletária – única fábrica que o operário tem”. A condição feminina era de submissão e a sua função principal se limitava à produção eficiente de filhos para satisfazer as vontades do marido exigente como um burguês/patrão.
Destacamos ainda o processo cíclico denunciado pelo poeta. Os filhos de hoje, serão os operários de amanhã e, possivelmente, os do sexo masculino terão o mesmo destino de seus pais, homens máquinas. E as de sexo feminino desempenharão, como suas mães, o papel de mulheres fábricas, cabendo a elas o dever de oferecer braços para o senhor burguês e, de preferência, braços sem cérebro.
Notamos ainda a presença da religiosidade no poema, pois através dela algumas questões, como a falta de estrutura das famílias proletárias para dar condições dignas de vida aos seus filhos, são levantadas.
Jorge de Lima, poeta moderno, convertido para o catolicismo, menciona a presença de seres divinos – os anjos – e de Jesus Cristo. Nesse momento, ele faz alusão às crianças, comumente chamadas de anjos pelo discurso cristão católico em função da pureza delas. Além disso, a alusão aos seres religiosos remete-nosa referência à morte prematura desses bebês, tendo em vista a vida precária dos pais – os operários – possuidores de baixa renda, que se dispunham de má alimentação sendo quase nulas suas possibilidades de acesso à saúde de qualidade. É importante ressaltar, nesse contexto, o poder impositivo da Igreja, enquanto instituição, visto que os métodos contraceptivos não eram utilizados pelo “povo”, já que o sexo ainda estava ligado exclusivamente à procriação.
Por isso, os anjos são “fornecidos”, – termo comumente utilizado pelos comerciantes – como mercadorias ao Senhor Jesus, ou seja, as crianças morrem por não terem pais estruturados que as possam alimentar e dar vida, e descansam no colo do Senhor Jesus.
De sorte que, como citamos no excerto acima, os que não resistissem à situação precária seriam elevados à condição de anjos do Senhor Jesus, mas os que vingassem, em poucos anos, seriam transformados, como seus antepassados,em braços para o senhor burguês.
Essa relação entre burguesia e proletariado foi alvo dos estudos de Antônio Cândido (1995), e segundo ele, a partir dos impactos da industrialização do Brasil do século XIX, “pela primeira vez a miséria se tornou um espetáculo inevitável e todos tiveram de presenciar a sua terrível realidade nas imensas concentrações urbanas […]”. (CANDIDO, 1995, p. 182). Espetáculo este exposto às margens da sociedade burguesa, que se construía com base no trabalho árduo de homens e mulheres vindas de localidades rurais, em busca de melhores condições de vida para si e para seus filhos. É interessante notar como as mudanças sociais impregnam na palavra poética, a qual se torna arma e inconformidade. Para Bosi, ainda em seu trabalho O ser e o tempo da poesia (1977), o poeta é doador de sentido (p. 139). Por isso mesmo, a literatura, assim como outras manifestações artísticas, começaram a dar espaço para aqueles condicionados à força brutal dos grandes senhores, desta vez, burgueses. Fundamentadas nas palavras de Cândido, temos a comparação:
Enquanto de um lado o operário começava a se organizar para a grande luta secular na defesa dos seus direitos ao mínimo necessário, de outro lado os escritores começavam a perceber a realidade desses direitos, iniciando pela narrativa da sua vida, suas quedas, seus triunfos, sua realidade desconhecida pelas classes bem aquinhoadas. (1995, p. 183).

Assim, Lima continua a sua percepção da realidade e a expõe, objetivando dar sentido à vida de tantos homens, cujos direitos estavam sendo negligenciados. Vejamos:
Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar o teu proprietário (LIMA, 1978, 21).
Nos versos supracitados temos uma evocação do poeta que procura o rompimento do processo cíclico. Os filhos, então, poderiam ser a salvação dos pais, caso assumissem a condição de heróis, agindo para que as circunstâncias as quais eram submetidos fossem transformadas e gerassem uma perspectiva mais promissora. Sob o signo religioso, caberia a mulher o papel de protagonista, pois os heróis seriam gerados por ela.
Ademais, os versos de Jorge de Lima colocam-nos diante de um paradoxo: de um lado o reconhecimento do papel fundamental desses trabalhadores, para o processo de industrialização; e do outro, estes mesmos homens sendo rebaixados à condição de máquina, visto que não ultrapassam a condição de ferramentas, sendo vistos por seus “proprietários” tão somente como braços.
Concluímos, portanto, que a literatura cantada através da voz de Jorge de Lima em Mulher proletária, apresenta um caráter redentor, uma vez quedenuncia os horrores sofridos pela a esfera popular da sociedade, enfatizando a condição precária de vida à qual o operário brasileiro estava submetido. Temos, nos versos do poeta, uma demonstração do Brasil que emergia no período pós-escravidão, onde apesar de considerados livres o homem continuava escravo de sistema que, mais do que nunca, visava ao lucro de uma pequena classe, a Burguesia, que estava em ascensão.

REFERÊNCIAS:
1. Corpus para análise:
LIMA, Jorge de. Antologia poética. São Paulo: José Olympo, 1978.

2. Obras de apoio teórico-crítico:
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Trad. Maria Helena Kühner. 5 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
CANDIDO, Antonio. Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. 8 ed. São Paulo: T.A. Queiroz, 2000.
COUTINHO, Afrânio (dir.); COUTINHO, Eduardo de Faria (co-dir.). A Literatura no Brasil; introdução. São Paulo: Editora Global, 2004.

MOISÉS, Massaud. Dicionários de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.

ORTIZ, Renato. O Mercado de bens simbólicos. ______. In: A moderna tradição brasileira. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

¹ Larissa Cardoso Beltrão – Professora na Universidade Estadual de Goiás (UEG) – UnU Campos Belos – Mestranda em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

² Rebeca Mendes Garcia Graduanda em Letras – Português/Inglês na Universidade estadual de Goiás (UEG) – UnU Campos Belos.

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